Amigos,
Estive em Washington-DC em férias, a convite de uma amiga que trabalha para a Organização Pan-Americana da Saúde. Eu e sua família viajamos de carro até Montreal e Quebec. Nesta cidade histórica, lindíssima, passei o maior frio de minha vida na noite de Ano Novo, na rua e sob vento: -29ºC. Todo dia foi de muita neve, esquilos aos bandos nas praças e parques, pinheiros, lagos públicos transformados em rinques de patinação no gelo, rios e cachoeiras congeladas, castanhas, luzes, tudo que a ilusão de Natal do Norte sempre nos fascinou de crianças: um "Natal de Verdade" (sic). Depois, Boston e Nova York.
Fim dos tempos obscuros da era Bush – FINALMENTE!!! –, os EUA renascem. Nova York, especialmente o East Village (a cem metros da casa da Cristina, de quem fui hóspede, 40 anos atrás, Janis Joplin dava concertos ao ar livre na Tompkins Square), é uma maravilha. Andando por suas ruas, encontram-se não apenas jovens dos EUA e de todo o mundo, também homens e mulheres igualmente joviais, com sua longa calvície amarrada em tranças ou rabos-de-cavalo, multicolorida, felizes a seus 50, 60, 70 anos, cujo olhar úmido e brilhante parece guardar e refletir as imagens daqueles tempos de singela e ingênua felicidade do Flower & Power. Pura nostalgia --- saudades de Marlon Brando, por exemplo --- é o que nos envolve ao caminharmos pelas ruas do bairro, à sombra ou sob o sol tênue do inverno, entre centenários edifícios de tijolos vermelho-escuros cujas fachadas todavia exibem as velhas escadas de incêndio de ferro, vitrines dos sebos e livrarias atualíssimas, roupas artesanais e alternativas contemporâneas, ateliês de tatuagem, restaurantes vietnamitas, indianos, chineses, gregos, egípcios, italianos e franceses, lavanderias e drugstores, todo tipo de biboca ou pequeno negócio, aberto dia e/ou de noite. O bairro é uma festa permanente.
E que cidade! Fala-se todas as línguas nas ruas de Chinatown, no SOHO das galerias de arte e das lojas de grifes sofisticadas, no Central Park ou na monumental Grand Station, nos edifícios antigos e nos novos e imponentes arranha-céus de aço e vidro das grandes corporações internacionais. À noite, caminhar na Broadway sob a neve é um sonho vivo. Mais bonito que no cinema, acredite! E o MOMA, o Museu de Arte Moderna, em sua nova sede, de uma modernidade despojada, tecnologicamente adequada, perfeita para abrigar a maior coleção de arte moderna no mundo, é o melhor museu de NYC. Enfim, teria muito pouco espaço e tempo aqui para falar da cidade de Nova York.
A viagem de volta ao Brasil foi tranqüila, embora cansativa. Tantas horas no assento meio apertado e sem espaço para enfiar as pernas da classe Econômica... Decidi entabular conversa com um 'gringo' (como outra amiga brasileira em Washington a eles se refere) a meu lado, ruivo, branco como o leite --- até nos cílios ---, de olhos miúdos azuis claros, negociante que vive de viagens pelo mundo, entre Índia, China, EUA, Brasil. Quer viver neste nosso país. A noiva mora em Porto Alegre, é indiana (da Índia, isso mesmo!).
Falava muito, o que não é comum entre eles. Foi assaltado na capital gaúcha, um ou dois meses atrás. Guardava essa lembrança na cicatriz a bala no pescoço: 'Pensam que sou louco mas estou voltando ao Brasil para montar um negócio, apesar das complicações legais e da burocracia (leia-se também 'corrupção') de seu país...' E mais, manifestava toda sua inconformidade com nossa boa-vontade, simpatia e alegria popular, capazes de conviver com tanta violência e desvalorização da vida, de nosso caos organizado, dificultoso para os negócios. Com razão, não há o que dizer sobre essas evidências de nossa herança ibérica. Há que estudá-las e entendê-las, para superá-las.
Sobre a tentativa de assalto ao carro – frustrada – de que foi vítima o amigo com o qual ele estava, não fui capaz de emitir comentário que de algo servisse, apenas o de costume, e acenei a cabeça com aquela expressão mista de admiração, lamento e constrangimento por este nosso país belo e progressista, a despeito de problemas sociais graves como o enfrentado por ele. E com aquela pergunta calada, que não se ousa fazer salvo para os mais íntimos: 'Vocês deram mole ou foi mesmo azar?' O que não importa, afinal. Em Washingtom, por exemplo, pode-se "dar mole" e a chance de acontecer algo com vc é mínima.
Escrevi o seguinte texto ainda em Washington. Despretensiosamente, quis registrar e transmitir as vocês minhas impressões de turista sobre o país dos norte-americanos e seu atual momento político:
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Para dizer o que confirmei in loco: Barak Obama é todo inspiração e atitude, dignidade, elegância, firmeza de caráter. Afinado com nosso tempo de crise e redefinição de valores, modelos e costumes. E de emergência de uma nova ética, não só política mas de postura diante da vida, neste mundo insustentável se não promovermos uma urgente revisão de nossas atitudes, comportamentos e práticas.
O acesso de um negro, filho de africano muçulmano e branca norte-americana, ao posto mais alto da nação mais poderosa do mundo coincide com este especial momento dos Estados Unidos da América, país colonizado por anglo-saxões calvinistas. Os EUA de hoje – meu único contato anterior com este país aconteceu há pouco mais de 11 anos – é diferente daquele do verão de 1997. Mantém seu cosmopolitismo original, é certo, agora complementado pela nítida e bastante maior presença étnico-cultural de novos contingentes imigrantes da própria América, da Europa oriental à Ásia. Principalmente "hispânicos" (um erro reducionista inaceitável, especialmente para os povos da América de origem não espanhola, eles assim classificarem todos os americanos que não falam inglês). E de seus negros, mais integrados à sociedade, mais altivos, conscientes e orgulhosos de sua cor e raça, de recente, impressionante e comovente história de lutas por liberdade e igualdade.
A Universidade de Georgetown, a mais antiga do país, fica aqui em Washington. A construção é maravilhosa: caminhei por seus corredores. Quase entrei em uma de suas belas salas de aula, de estrutura em madeira apoiada sobre paredes e fundações de pedra. Recuei da intenção ao me deparar com um estudante solitário, distraído, debruçado sobre seus cadernos e livros. Dias depois, no telejornal da 'BBC America', um jovem e bastante simpático professor da mesma Universidade – negro – declarou emocionado ao apresentador que se sentia duplamente orgulhoso de Obama: por ser seu Presidente, eleito democraticamente pelos americanos, e por ser negro. Sua declaração dá o tom da importância desta eleição, do atual passo dado por esta sociedade multirracial, multicultural, de geografias físicas e humanas tão ricas e distintas.
A diversidade e coesão dos EUA como nação, a despeito do privilégio e precedência concedida à liberdade e aos valores individuais (e agora, portanto, à participação de cada um per se na premente reconstrução de um sistema econômico quase arruinado pelos abusos do neoliberalismo), conforma-se no plano social e fortalece-se no protagonismo ativo de suas minorias, grupos étnicos e outros representativos de microculturas ou comportamentos, dos mais variados movimentos independentes, organizados democrática e livremente. Aqui, este é um princípio constituinte da sociedade e de seu Estado, respeitado e cumprido por gerações e gerações de cidadãos e comunidades.
Não obstante tantas dificuldades e temores sobrevividos, o sentimento de povo lutador, conquistador e autoproclamado defensor universal (...) da ideologia e do exercício da Liberdade como direito inalienável do ser humano reafirma-se no esteio desta oportunidade, ironicamente oferecida pela crise econômica, diante do necessário enfrentamento de seus desafios e sua superação. Reergue-se o velho espírito unificador da nação 'América', forjado guerras atrás de querras, antes internas a um país em formação e logo, mundo afora, na consolidação do império que conhecemos e sob o qual todavia vivemos.
A palavra-chave dos EUA de hoje é CHANGE, como no Brasil em que Lula se elegeu em 2003. Urge MUDANÇA, para desejo da grande maioria dos norte-americanos. E nosso, porque afinal, o que eles decidirem nos afetará, e a todo o Mundo.
Emocionei-me muitas vezes, nesta viagem. Como durante as duas horas do chamado Show da Vitória, realizado do alto das escadarias do Memorial Lincoln, aos pés da majestosa estatua de seu maior Presidente, de olhar penetrante, sério e determinado, para as 500 mil pessoas à volta do grande espelho d´água, o ‘Pool’, congelado pelo frio presente de -6ºC, a refletir o grande obelisco branco. E dois dias depois, na posse do Governo Obama, o 'Inauguration Day'. Neste dia, dois milhões de pessoas educadas e solidárias, não sob o mesmo frio porque agora com vento, multidão-exemplo de comportamento civil, hesitaram em vaiar Bush por respeito a seu status de Presidente. Contudo o vaiaram – não todos, uma ligeira maioria – no grande Mall de Washington, sua 'Esplanada dos Ministérios', que nunca viu tanta gente em toda a história da cidade. Creio que ninguém no mundo reuniu tantos para o ver e ouvir de perto: a meu lado, vindos de todos os cantos dos EUA, trabalhadores e sindicalistas, professores universitários, estudantes, negros, brancos, imigrantes, famílias inteiras: a nova América, a América de Obama.
A cerimônia e o discurso de posse traduzem um compromisso de todos. Em momento algum Obama fala como EU ou MEU GOVERNO ou MEU PARTIDO, como costumamos ouvir nossos políticos. Fala NÓS, EM NOSSO NOME, como um pastor que se dirige aos fiéis, seu Grande Líder capaz de unificá-los e resgatar seu amor próprio, seu orgulho patriótico, sua dignidade e autoestima de povo e civilização. Surpreendentemente, termina com uma oração universal, o Pai Nosso! A mídia brasileira, por acaso, teve sensibilidade para registrar o fato? Seu compromisso – dele e todos os norte-americanos – é social, político e econômico para superar a crise, ideológico e, como forma e síntese desse caráter múltiplo, religioso. Assumindo-o, os EUA poderiam voltar a ser a grande nação-império (...). Tudo o que eles querem e, principalmente, sua cultura de profundo sentido messiânico necessita, neste momento grave para o país. E para o mundo.
Michelle é a personificação da inteligência e sensibilidade feminina. Serena, forte e segura, ao lado do marido, não é apenas uma imagem de personalidade admirável. É uma profissional competente, formada em Harvard, uma intelectual. As filhas são lindas e graciosas, seus rostos expressam curiosidade, ingênuo deslumbramento, felicidade de crianças saudáveis. A maior, de máquina fotográfica em punho, não perde um só instante das solenidades em que está presente, sempre sorridente. Lindo ver essa família e tê-la como referência do povo que representa. É de invejarmos, não por vício e sim por sincera e legítima admiração. São adorados pelo povo. Sem marketing político, de fato inspiram essa confiança, respeito e reverência.
Que o destino os proteja.
Ermenegyldo Munhoz Junior
PS:
No aeroporto de Washington-Dulles, logo que passei pelo portal eletrônico e minhas bolsas pela esteira, o checkin detectou o perfume, presente de Natal de minha mãe, e a colônia que minha amiga Cristina, de Nova York, me pediu para entregar à irmã em Brasília. Líquidos e pastas – cremes, gel, etc – na bagagem de mão ou na despachada separadamente são suspeitos de material explosivo. O agente de segurança abriu a mochila pequena e minha bolsa e o que estivesse embalado dentro delas, inclusive o presente, levaram tudo para uma sala. Fiquei ali, à espera, por ordem dele. Dez minutos depois, muito educado e atencioso, o rapaz pediu sinceras desculpas por ter desfeito o pacote de presente, etc... Respondi que isso não tinha importância, que reconhecia a valor de seu trabalho para nossa maior segurança. Os passageiros norte-americanos, por sua vez, reclamavam de tanto controle e conseqüente atraso em seu embarque. Já em casa de meus pais, desfiz as duas malas despachadas fechadas com cadeado (mania de tupiniquim, justificável aqui no Brasil): a segurança do aeroporto de Dulles abriu uma delas mas deixou todo o conteúdo ajeitado como antes.
domingo, 5 de abril de 2009
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